Identidade

Ele não é nem daqui nem de lá: entendendo a identidade da criança que cresce entre duas culturas

21 de setembro de 2026 · Leitura de 6 min · Equipe Ninho ABC

O que significa ser uma “criança de terceira cultura”, quais sinais mostram que isso está pesando e como ajudar seu filho a se sentir inteiro.

“No Brasil me chamam de gringo. Aqui me chamam de brasileiro. Então eu sou o quê?” Se você já ouviu uma frase parecida do seu filho, ou sente que ela está por vir, este texto é pra você.

O que é uma criança de terceira cultura

O termo em inglês é “third culture kid”, e descreve crianças que crescem numa cultura diferente da cultura de origem dos pais. Elas não pertencem totalmente ao país onde vivem, nem ao país de onde a família veio. Acabam construindo uma terceira coisa, que é só delas: uma mistura de referências, valores, sotaques e jeitos de ver o mundo.

Isso não é um problema. É uma forma legítima de identidade. O que pode virar problema é quando a criança sente que precisa escolher um lado, e que qualquer escolha significa trair o outro.

A pressão silenciosa de escolher

A pressão vem de vários lados ao mesmo tempo, e quase nunca de forma explícita.

Da escola e dos amigos vem a mensagem: “seja como a gente”. A criança aprende rápido que ser diferente demais custa caro socialmente.

De casa vem a mensagem: “não esqueça de onde você veio”. Vem com amor, mas também vem com expectativa. Cada vez que o filho prefere comida daqui, música daqui, gíria daqui, um pai ou mãe pode sentir uma pontada.

Da família no Brasil vem a mensagem: “nossa, ele já está tão diferente”. Às vezes dita como elogio, às vezes como crítica velada, e a criança sente as duas.

O resultado é uma criança que tenta agradar todo mundo e acaba sem saber quem ela é quando está sozinha.

Sinais de que a identidade está pesando

Nem toda criança de terceira cultura sofre com isso. Muitas navegam bem, especialmente quando a família aceita a mistura com naturalidade. Mas vale ficar atento a alguns sinais:

  • Rejeição forte de tudo que é brasileiro, com vergonha dos pais na frente de outras pessoas.
  • O contrário: apego exagerado ao Brasil e recusa em se adaptar, como se adaptar fosse desistir.
  • Comportamentos muito diferentes dependendo do ambiente, como se fossem duas crianças.
  • Perguntas repetidas sobre “onde é minha casa de verdade”, com angústia.
  • Sensação de não ter amigos “de verdade” em lugar nenhum.
  • Irritação ou tristeza antes e depois de viagens ao Brasil.

Esses sinais não indicam que algo está errado com a criança. Indicam que ela está trabalhando duro pra dar conta de uma tarefa difícil, e que talvez esteja precisando de ajuda pra organizar isso por dentro.

Como ajudar seu filho a se sentir inteiro

Pare de exigir uma escolha. A frase mais importante que um filho de imigrantes pode ouvir é: “você não precisa escolher. Você pode ser das duas coisas.” Diga isso com todas as letras, mais de uma vez.

Nomeie a experiência. Explique pra ele que existe um nome pra isso, que muita gente cresce assim e que essa mistura tem vantagens reais: ele vê o mundo por mais de uma janela.

Não trate a adaptação como perda. Quando seu filho gosta de algo do país onde vocês vivem, comemore junto. Ele precisa sentir que gostar daqui não é abandonar o Brasil.

Cuide da sua própria relação com a mudança. Muitas vezes a criança está ecoando um conflito que é dos pais. Se você ainda não sabe se quer estar aqui, ela vai sentir e vai ficar dividida também.

Construa rituais que juntem os dois mundos. Um jantar brasileiro com convidados locais, uma festa junina no quintal com os amigos da escola, um álbum de fotos com as duas casas. Rituais dizem à criança que os dois mundos cabem juntos.

Deixe ela contar a própria história. Pergunte: “quando alguém pergunta de onde você é, o que você responde?”. Ouça sem corrigir. A resposta dela é a identidade dela em construção.

Quando buscar apoio

Se a angústia com a identidade está afetando o sono, a escola, as amizades ou o humor da criança por semanas seguidas, é um bom momento pra procurar ajuda profissional. Um psicólogo que entende a realidade de famílias brasileiras no exterior consegue trabalhar essa questão com a criança e com os pais, sem tratar a mistura cultural como problema a corrigir.

A Ninho ABC atende famílias brasileiras no exterior por meio de sessões online em português. Se o “nem daqui nem de lá” virou dor dentro da sua casa, vale conversar.

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Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação de um profissional. Em caso de dúvidas sobre o desenvolvimento ou o comportamento do seu filho, procure um psicólogo.