Ficar ou voltar
Quando voltar (ou não) ao Brasil vira uma tensão silenciosa dentro de casa, e como isso chega até as crianças
A dúvida sobre ficar ou voltar raramente é dita em voz alta. Mas as crianças sentem, e reagem.
Um dos dois quer voltar. O outro não. Ou os dois querem, mas por motivos diferentes. Ou nenhum quer, mas a pressão da família no Brasil é forte. Ou ninguém sabe, e o assunto é evitado porque toda vez que vem à tona termina em briga.
Enquanto isso, as crianças crescem numa casa onde o futuro está em suspenso. E isso deixa marcas.
Por que essa tensão é tão comum
Poucos brasileiros saem do país com um plano definitivo. A maioria vai “pra ver como é”, “por uns anos”, “até juntar dinheiro”. O tempo passa, a vida se constrói, e a pergunta “vamos voltar?” nunca é respondida de vez.
Só que o casal muda em ritmos diferentes. Um se adapta, faz amigos, gosta do trabalho. O outro sente saudade todo dia, não consegue se sentir em casa, conta os anos. E como a decisão é enorme, ninguém quer ser o responsável por ela. O assunto vira tabu.
Como a criança percebe
Criança não precisa ouvir a conversa pra saber que algo está no ar. Ela percebe:
- O silêncio pesado quando alguém do Brasil pergunta “e aí, quando vocês voltam?”.
- A tensão nas chamadas de vídeo com os avós.
- A briga que começa por qualquer coisa e termina com “você nunca quis estar aqui”.
- Um dos pais com os olhos marejados olhando fotos antigas.
- A frase “não sei se vamos estar aqui ano que vem”, dita de passagem.
E ela reage. Cada criança de um jeito.
O que a incerteza faz com a criança
Dificuldade de criar raízes. Se a família pode ir embora a qualquer momento, pra que fazer amigos de verdade? Pra que se esforçar na escola? Algumas crianças ficam “com um pé atrás” em tudo, sem perceber por quê.
Ansiedade com o futuro. “Vou ter que mudar de escola? Vou perder meus amigos? Vou ter que aprender tudo de novo?” A criança faz essas perguntas por dentro, sem resposta.
Sentimento de dever escolher um lado. Se o pai quer ficar e a mãe quer voltar, a criança sente que qualquer preferência dela é uma traição a um dos dois. Então ela não expressa preferência nenhuma, ou expressa a que acha que vai agradar.
Culpa. Muitas crianças ouvem, ou deduzem, que “a gente fica por causa de vocês” ou “a gente voltaria se não fosse a escola de vocês”. Elas passam a se sentir responsáveis pela infelicidade de um dos pais.
Comportamento regressivo ou desafiador. Quando o ambiente está instável, a criança testa os limites pra ver o que ainda é firme. Ou volta a comportamentos de mais nova, buscando segurança.
O que o casal pode fazer
Tirem o assunto do tabu. Marquem uma conversa, sem crianças, com tempo. O objetivo não é decidir, é ouvir o que cada um sente de verdade. Muitos casais descobrem que o outro não quer o que eles imaginavam.
Separem “o que eu sinto” de “o que a gente vai fazer”. Você pode sentir saudade todos os dias e ainda assim escolher ficar. O outro pode estar feliz aqui e ainda assim entender sua dor. Sentimento não é decisão.
Definam um horizonte, mesmo que provisório. “Vamos ficar até o fim do ano letivo e aí reavaliamos.” Um prazo, mesmo que mude, dá chão pra família inteira.
Não usem as crianças como argumento. “Fico por causa deles” coloca sobre a criança um peso que não é dela. Se a decisão envolve os filhos, e ela sempre envolve, isso é responsabilidade dos adultos.
O que dizer pras crianças
Dependendo da idade, a criança merece saber que o assunto existe, de forma honesta e sem angústia:
“A gente está pensando se fica aqui ou volta pro Brasil. Ainda não decidimos. Mas queremos que você saiba que, seja qual for a decisão, a gente vai cuidar de você e vai te contar com calma.”
E depois, pergunte: “o que você acha? do que você mais gosta aqui? do que sente mais falta do Brasil?”. Não pra ela decidir, mas pra ela se sentir parte. Deixe claro que a opinião dela importa e que a decisão é dos adultos.
Quando buscar ajuda
Se o assunto virou fonte de brigas constantes, se um dos dois está em sofrimento persistente, ou se as crianças mostram sinais de ansiedade, regressão ou tristeza ligados à instabilidade, vale conversar com um profissional. Um psicólogo que conhece a realidade de famílias brasileiras no exterior pode ajudar o casal a destravar a conversa e ajudar as crianças a lidar com a incerteza.
A Ninho ABC atende famílias brasileiras no exterior em sessões online, em português. Se a pergunta “voltar ou ficar” está pesando na sua casa, conversar pode ser o primeiro passo pra ela deixar de ser um fantasma.
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